Retrospectiva: Mercado de Educação Básica

Desdobramentos, inovações e negócios no mercado de educação básica.

A educação básica, como sabemos, teve um ano difícil. Comparo com uma roda gigante, vezes no alto, vezes no baixo, hora rápido e emocionante, vezes devagar e entediante. Ainda na rabeira da pandemia que se sustentou forte por boa parte do ano, o mercado não deixou de se movimentar. Ipo’s, aquisições, rodadas de investimento, novas empresas, novas escolas e incremento de tecnologia, tudo isso em meio à incertezas frente a um cenário de constante instabilidade devido a um vírus corrosivo e insistente.

No vai e vem do ensino presencial

A “briga” acerca do ensino presencial gerou certo stress no setor educacional. Se, por um lado, as escolas particulares – pelo menos parte grande delas – defendiam estarem preparadas para receber os alunos presencialmente, havia também quem defendia que esse retorno era inseguro para o momento. A discussão foi a fundo, uma das conquistas foi o adiantamento da vacinação de profissionais da educação.

A Federação Nacional de Escolas Particulares – FENEP atualizava periodicamente um documento (Mapa do retorno das atividades presenciais) que informava quais estados estavam com suas escolas abertas e quais estados ainda mantinham as escolas fechadas. Cerca de 99,3% das escolas brasileiras suspenderam o presencial, segundo esta matéria publicada pela Agência Brasil. Ainda em março, no controle da FENEP, 17 estados mantinham suas escolas totalmente fechadas e 9 mais o DF trabalhavam no modelo hibrido. Esses números oscilaram durante o ano, conforme decisões estaduais até este momento, quando todas as escolas já recebem os alunos presencialmente.

Quem está correto nesta relação fica a cargo do leitor. Fato é, que o impacto do coronavírus na educação básica foi e tem sido realmente devastador. O ministério da Economia publicou um Boletim Macrofiscal alegando que o efeito da pandemia de covid-19 poderá ter impacto profundo sobre a economia brasileira de cerca de 15 anos. Se o cenário abalou todo o setor, quem dirá o tamanho da consequência sofrida pelas pequenas e médias escolas. Com margem apertada, as escolas viram seu faturamento cair, ao passo que a inadimplência aumentou, os descontos foram constantemente discutidos e a receita procedente afetada. Sem deixar de citar a evasão de alunos, uma vez que a renda das famílias diminuíram, muitas não tiveram alternativa e precisaram trocar os filhos de escola, fosse para uma escola de menor valor, fosse para o ensino público. Uma matéria publicada pela Agência Brasil a partir de um relatório produzido pelo Grupo Rabbit considerou uma evasão na casa dos 34%, número possivelmente superestimado, do qual só teremos real dimensão com o próximo censo escolar.

Mutirão virtual para negociar as dividas escolares , permuta como saída para manutenção dos alunos nas escolas, pais inseguros com a segurança sanitária das escolas e o agravamento da crise que frustrou a expectativa inicial da educação culminaram na junção de escolas e empresas do setor, que criaram a União Pelas Escolas Particulares, com o intuito de defender os interesses dos colégios e sua consequente sobrevivência neste cenário revolto.

Movimentações de mercado

Nem só de caos vive o setor, 2021 foi um ano importante, resultando em uma série de movimentações que balançaram todo mercado educacional. Abaixo listo alguns destes principais acontecimentos.

Quando o assunto é IPO

Em fevereiro foi a vez da Cruzeiro do Sul Educacional abrir oferta pública inicial, à época, as ações foram negociadas a R$ 14,00 e a captação somou R$ 1,231 bi.

O Grupo SEB do presidente-executivo Chaim Zaher, divulgou, em matéria da Reuters, a intenção e planejamento de abertura de capital para Maple Bear e escolas premium na Nasdaq.

Outra empresa que vem falando sobre IPO desde o ano passado é a Eleva Educação controlada por Jorge Paulo Lemann, a empresa vem se movimentando neste sentido, inclusive com uma troca de ativos graúda com a Cogna Educação, cujo acordo incluía ações da Eleva.

A Inspira, segunda maior rede em número de escolas, recentemente também divulgou que planeja fazer IPO, logo após alcançar R$ 1 bilhão de receita, números que devem ser alcançados até o final de 2023.

Novas rodadas de investimento

Em fevereiro, em uma rodada série E , o Descomplica levantou R$ 450 mi, capital injetado pelo SoftBank e Invus Group. Segundo Fisbhen, CEO do Descomplica, o aporte será usado em tecnologia, crescimento de portfólio e aquisições.

A Edtech Árvore, levantou em Julho cerca de R$ 15,5 mi. A empresa cofundada por João Leal, já havia recebido, em uma rodada seed, 2,5 mi ao fundir com a Guten, em 2019. Entre os principais investidores está a Imaginable Futures do Pierre Omidyar.

Outra rodada que chamou atenção foi da fintech voltada à escolas, Isaac. Em rodada série B, a empresa levantou US$ 125 mi, investimento liderado pela General Atlantic com participação do SoftBank e Kaskek. Aqui vale uma atenção especial, o modelo negócio que garante o recebimento mensal da receita escolar ao operacionalizar todo pagamento de mensalidades, se transformou em um sucesso na educação básica, culminando em um nicho completamente aquecido que conta com mais um grande player a EducBank e pelo menos mais dois novos entrantes, que vão buscar espaço em uma fatia do mercado que rapidamente se tornou competitiva.

No final do ano, mais um movimento no mercado de educação básica foi da rede de escolas Decisão. Com R$ 60 milhões em mãos, a empresa que investe no seguimento low-cost, pretende adquirir novas escolas, levantar outras do zero e incrementar novas tecnologias de inovação pedagógica. A capitalização foi feita pela Blue Like a Orange, gestora de impacto fundada pelo fracês Bertrand Badré.

Fusões e Aquisições

A Cogna educação adquiriu a Sociedade Educacional da Lagoa (SEL) por R$ 65 milhões. A SEL presta serviços técnicos e pedagógicos para plataformas educacionais, inclusive de manutenção tecnológica de tais plataformas, desenvolvimento e aprimoramento de conteúdos e de capacitação técnica e foi fundada em 1997.

Com valor de R$ 920 milhões, a Arco Educação comprou os cobiçados sistemas de ensino COC e Dom Bosco. A consolidação da compra veio após uma disputa com outras empresas do setor pelo sistemas ofertados pela Pearson.

Adicionando ao seu portfólio uma solução digital B2C que atende alunos de escolas públicas e privadas, a Arco também adquiriu a plataforma Me Salva!

Uma noticia com grande repercussão na educação básica privada foi a troca de ativos feito entre Cogna e Eleva, dois dos grandes grupos educacionais do país. No acordo, a Eleva ficou com os colégios, enquanto a Cogna levou os sistemas de ensino que anteriormente foram administrados pela primeira. em valores, à época divulgados, A Eleva pagaria R$964 mi pelas 51 escolas operadas pela Cogna, enquanto a Cogna, por meio da Vasta, pagaria R$580 mi no sistemas de ensino. O movimento foi concluído em novembro e foi classificado como o maior acordo do setor de ensino básico no país.

A Bahema Educação comprou três escolas da Ânima em Santa Catarina e fez um acordo para abrir pelo menos outras cinco em campi da companhia de educação superior. A Bahema vai pagar R$ 30 milhões, sendo R$ 18 milhões no closing e R$ 12 milhões até maio de 2022. Além disso, pode pagar um earnout de cerca de R$ 6 milhões até 2024.

Em mais uma de suas aquisições, a Arco Educação adquiriu a Eduqo, startup de tecnologia educacional fundada em 2014 . A Eduqo oferece soluções de inteligência de dados e de personalização da aprendizagem para mais de 400 escolas parceiras e chega para reforçar o ecossistema de tecnologia educacional da Arco. Segundo a Exame Invest, o valor de compra foi de R$ 30 milhões e marcou a saída dos VC’s que investiram na Edtech incialmente.

No final de 2021 a Quero Educação divulgou suas novas aquisições, Descubra o Mundo e  Škola. Aquisições que formalizam entrada da Edtech nos mercados de Intercâmbio e e-commerce. A Descubra o Mundo é um marketplace de intercâmbio e possui mais de 80 mil opções de cursos e mais de 25 países. Já o Škola, é plataforma no-code e omnichannel feita 100% para educação foi inspirada na VTEX e Nuvem Shop, permite que grupos educacionais criem seus E-commerces e marketplaces diretamente em seus sites.

Aos 45′ do segundo tempo, mais uma importante movimentação. A Inspira compra o Anglo Leonardo da Vinci dos professores e fundadores Joaquim Roque, Sérgio Molina e Wagner Valente. A escola nasceu na década de 1970 e foi a primeira escola do Brasil a adotar o método de ensino Anglo. O grupo comprou 100% do Leonardo da Vinci, sendo quase metade do valor em ações da holding.

100 EdTechs mais promissoras da América Latina

A Holon IQ lançou sua lista anual com as Startups de Educação mais promissoras da América Latina. A lista, selecionada pela equipe de inteligência da empresa, selecionam 100 entre mais de 2.000 EdTechs com base em uma pontuação composta por capital, mercado, produto e crescimento.

Algumas brasileiras que atuam no setor de Educação Básica Compuseram a lista, sendo algumas delas: Descomplica, Quero Educação, Movva, Camino, ClipEscola, Árvore, Diário Escola, Geekie, Jovens Gênios, entre outras.

Startups de Educação por Categoria | Holon IQ

Considerações: Mercado & Educação

Como dito anteriormente, esse ano de 2021 foi marcante para o mercado de educação básica, que mesmo em meio as instabilidades atribuídas ao vírus da Covid-19 permaneceu fazendo negócios, consolidando movimentos importantes para o setor educacional. Além das matérias supracitadas, o M&E acompanhou e promoveu discussões acerca do mercado. Entre essas matérias, estão conversas sobre a consolidação da educação básica, vendas para escolas, planejamento comercial para captação de alunos, centenário do colégio Ofélia Fonseca, abertura de novas unidades da Escola HUB, mercado endereçável para educação básica e, inclusive, elencamos personalidades da educação básica para seguir no linkedin, fora diversos outros assuntos abordados por nossos parceiros nos textos do Blog que você pode acompanhar aqui. Esperamos que 2022 seja um ano repleto de conquistas e crescimento para nosso setor educacional.

Encontrou algum erro ou deseja fazer alguma sugestão? Envie e-mail para raphaell.res@gmail.com.

Raphael Santo – Tecnólogo e graduado em Administração na UFSCar. Fundou e administra o Mercado & Educação, um blog do mercado educacional. É gerente no marketplace Melhor Escola do Grupo Quero Educação, entusiasta do mundo das vendas e apaixonado pela temática educacional.

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